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    Poema à boca fechada

    eu-sem-poesia:

    Não direi:
    Que o silêncio me sufoca e amordaça.
    Calado estou, calado ficarei,
    Pois que a língua que falo é doutra raça.

    Palavras consumidas se acumulam,
    Se represam, cisterna de águas mortas,
    Ácidas mágoas em limos transformadas,
    Vasa de fundo em que há raízes tortas.

    Não direi:
    Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
    Palavras que não digam quanto sei
    Neste retiro em que me não conhecem.

    Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
    Nem só animais boiam, mortos, medos,
    Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
    No negro poço de onde sobem dedos.

    Só direi,
    Crispadamente recolhido e mudo,
    Que quem se cala quanto me calei
    Não poderá morrer sem dizer tudo.

    José Saramago

    (via clementend)

    23.Jan.16 7 years ago